Lá vinha Fodinha, girando pelas mesas de bar, facilmente vista perambulando por rodoviárias imundas, na saída de seu colégio público do interior, onde se propunha a cursar o então ginásio. Cabelos negros, repicados, curtos, olhos vivos, miúdos e negros, baixa estatura: o que lhe servia da graça que toda mulher do povo deve ter, nem gorda nem magra, mas gostosa.
Uma devassa que se diferenciava pelo grau de humanidade, pela plenitude da qual só um sábio acompanhante que soubesse extrair o melhor de uma mulher, não cego pela estupidez das opiniões e preconceitos mundanos, poderia gozar.
Seu perfume barato quando de longe sentido, anunciava e embalava esperanças e promessas de decaírmos enebriados mais e mais uma vez a cada novo alvorecer de cada de mais uma noite profana. E nos acolhia...
Fodinha, bem me lembro, tantas e tantas vezes fora meu cupido, prá lá e pra cá, aqui e acolá, com bilhetes, recados e fuxicos.
O que acontece é que Fodinha em toda sua "superficialidade" vivia a magia das coisas, a quintessência da vida, rodava e rodava como um "girassol da noite" e como se aquela noite nunca fosse ter fim, e como se o Universo todo se findasse na negrura de seus olhos, era uma bandida do bem, o Robin Hood dos perdidos, desolados, desgarrados e despojados que, como ela, também agiam como se não tivessem mais onde ir, ou como se pouco importasse o amanhã. E tudo se misturava e fecundava numa bola de neve, em perfeita harmonia.
Não saberia definir ao certo minha relação com aquela mulher, tão despretensiosamente "gigante em sua própria natureza" e rica, como era rica. Por vezes, sentia necessidade da sensaçao que me fazia ver as coisas da vida e os problemas do cotidiano de forma mais amena, apenas pela sensação de pô-la no colo com vigor bêbado, e chamá-la: "-Minha puta!!". Hoje, se sorteado com a sorte de reencontrá-la, pensaria nessas putas escrotas que nos cercam cotidianamente, todas repletas em sua imensa ego-vacuidade, olharia pra Fodinha e toda sua "Cosmo-plenitude", e bem dentro dos seus olhos lhe apertaria e diria: -"Fodinha, minha amiga! Meu sangue! Minha parceira de lutas coisas que a concepção não consegue conceber nem o conceito conceituar".
Apesar de tantos outros colos frequentados por ela, sentia, que, comigo os gestos e risos que permeavam toda a comunicação tinham um quê único e mútuo de cumplicidade, de sentimento, nos preenchíamos compartilhando de uma visão bela e mágica. Era como se eu me tornasse sua infância difícil, de nenhum mimo, tampouco lazer... e ela se tornasse minha saga de injustiças sofridas e justiças conquistadas e os ombros em sangue da bandeira de ideais carregados por toda uma vida...
Creiam nesse que vos fala: ela nunca cobrou um centavo de ninguém dos poucos agraciados com a dádiva de realmente possuí-la. Não, ela não era dessas putas.
Fodinha: apelido maldoso, ingrato e insensível dos cabras sem instrução e estúpidos do interior; pois ela era muito mais q isso;
Fodinha era fodona.
quinta-feira, 12 de março de 2009
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